quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A partir de 21 de agosto, humanidade estará consumindo as reservas ecológicas da Terra

Em poucos dias, no dia 21 de agosto, teremos desperdiçado todo o capital que o planeta colocou à nossa disposição neste ano. Teremos utilizado toda a água que se recarrega espontaneamente nas camadas subterrâneas, as ervas que os campos produzem, os peixes do mar e dos lagos, as colheitas das terras férteis, o frutos dos bosques.
E, ao mesmo tempo, teremos exaurido o espaço útil para amontoar os nossos detritos, começando pelo gás carbônico que está desencadeando o caos climático. A partir do dia 22 de agosto, se deveria declarar a falência ecológica da espécie humana.
Mas, visto que parar é impossível, e as alternativas continuam na gaveta, resolveremos o problema repassando a conta para os nossos netos: deslocaremos o problema para o futuro. Pegaremos a água que corre nos depósitos fósseis, aqueles que não se alimentam com as chuvas. Forçaremos o ciclo do pastoreio sacrificando os campos no deserto. Esvaziaremos mares e rios das várias formas de vida, retirando mais do que a restituição geracional oferece. Continuaremos perdendo uma superfície florestal igual a 65 campos de futebol por minuto. E deixaremos que os gases poluentes invadam a atmosfera, prendendo o calor sobre a nossa cabeça e multiplicando as enchentes e os incêndios.
O alarme vem da Global Footprint Network, que há muitos anos calcula a pegada ecológica que corresponde aos vários estilos de vida. Se todos vivêssemos como os cidadãos dos EUA, precisaríamos de outros quatro planetas para satisfazer as nossas exigências. Se vivêssemos como os ingleses, seriam necessários outros dois países e meio. Os italianos consomem um pouco menos, mas também precisamos de um suplemento igual a mais de um planeta e meio. Para chegar a uma média per capita (embora uma média temporária, dada a taxa de crescimento), deve-se tomar os chineses como ponto de referência. Os indianos, ao contrário, usam aquilo que precisam e deixam os recursos de mais de meio planeta à disposição de outras espécies.
Tirando as somas globais, descobre-se que hoje já se consomem os recursos de um planeta e meio, e a taxa de voracidade continua aumentando. Por milhares de anos, os seres humanos satisfizeram suas necessidades utilizando só os juros do “capital natureza”. O limite crítico – o momento em que a demanda de serviços ecológicos superou a taxa com a qual a natureza os regenera – foi tocado no dia 31 de dezembro de 1986. Em 1987, o a linha vermelha caiu no dia 19 de dezembro. Em 2008, ficamos na estaca zero no dia 23 de setembro, enquanto em 2009 o Earth Overshoot Day foi alcançado no dia 25 de setembro. Neste ano – também por força de um cálculo mais sistemático dos campos efeticamente disponíveis –, teremos que começar a pedir empréstimos a nossos netos já no dia 21 de agosto.
“Se uma pessoa gastasse o seu salário anual inteiro em oito meses, teria que estar muito preocupada”, comentou Mathis Wackernagel, presidente da Global Footprint Network. “A situação não é menos alarmante quando tudo isso ocorre com o nosso crédito ecológico: as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, a falta de alimentos e de água demonstram que não podemos continuar financiando os nossos consumos endividando-nos. A natureza está prestes a perder a confiança na nossa conta ambiental”.
Porém, como nota Roberto Brambilla, que trabalha no cálculo da pegada ecológica para a rede Lilliput, para começar a reduzir o nosso impacto no ambiente basta pouco: comer menos carne, preferindo a do circuito biológico, utilizar bicicleta ou metrô algumas vezes, usar fontes renováveis. A soma de milhares desses pequenos gestos faz a diferença entre os consumos de um norte-americano (que tem uma pegada ecológica de nove hectares) e o de um alemão, que é de quatro hectares.

* Tradução: Moisés Sbardelotto
(IHU On-line)


ONDE VAMOS PARAR ? ...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

SOBRE A MEDITAÇÃO



O QUE É MEDITAÇÃO?

A meditação é uma aventura rumo ao desconhecido, a maior aventura que a mente humana é capaz de empreender A meditação é simplesmente ser sem fazer nada — nenhuma ação, nenhum pensamento, nenhuma emoção. Você apenas e isso é um grande prazer De onde vem o prazer de não estar fazendo nada? Vem de lugar algum ou de todos os lugares. Não há uma causa, porque a existência é feita de algo chamado alegria.



Testemunhar — o espírito da meditação. Quando você não está fazendo absolutamente nada, física ou mentalmente, quando toda a atividade cessa e você está presente, apenas existindo, chamamos isso de meditação. Não é algo que possa ser feito, nem é possível exercitar-se para isso: basta entender.


Sempre que encontrar um tempo para apenas ser, largue tudo o que estiver fazendo. Pensar, concentrar-se ou contemplar também são fazer algo. Se, por um único momento, você não fizer nada e estiver voltado para dentro de si mesmo, completamente relaxado, isso é meditação. Depois de aprendê-lo, será possível permanecer nesse estado pelo tempo desejado ou até ficar assim durante 24 horas por dia.


Na segunda etapa da meditação, após perceber como o seu ser pode permanecer imperturbável, lentamente você pode começar a fazer algumas coisas, cuidando para que o seu ser não fique agitado. Primeiro, aprenda a só ser, depois aprenda a fazer pequenas coisas, como varrer o chão ou tomar banho, mas mantendo-se centrado. Então você estará pronto para fazer coisas mais complexas.


Ainda que eu esteja falando com você, minha meditação não foi perturbada. Posso continuar falando sem gerar a mínima agitação interior: o meu centro está calmo e silencioso.


 A meditação não é contrária à ação, não requer que você fuja da vida. Ela apenas lhe ensina uma nova maneira de viver, na qual você se torna o centro do ciclone.
A vida continua, porém com mais intensidade, mais alegria, mais visão, mais criatividade, enquanto você permanece indiferente — um observador distante, vendo tudo o que acontece ao seu redor.


Você não é aquele que faz, e sim o observador.


O segredo da meditação é tornar-se o observador. As ações seguem o seu curso: é possível fazer pequenas ou grandes coisas, contanto que você não perca a concentração.


Essa consciência e essa capacidade de observação devem permanecer tranqüilas, imperturbáveis.


No judaísmo existe uma escola de ocultismo dissidente denominada hassidismo. O seu fundador, Baal Shem, era um ser especial. Tinha uma rotina: no meio da noite, era visto voltando do rio. À noite, rio era absolutamente calmo e quieto. Ele costumava ficar lá sentado, sem fazer nada: apenas observando o seu próprio eu, observando observador. Uma noite, quando voltava do rio, Baal Shem passou pela casa de um homem rico e o vigia à porta o notou.


O vigia estava impressionado porque todas as noites, naquela hora exata, Baal Shem voltava do rio, vigia aproximou-se e disse:


— Perdoe-me por interrompê-lo, mas não posso conter a minha curiosidade. Você está me assombrando dia e noite, todos os dias. Qual é o seu propósito? Por que vai até o rio? Muitas vezes o segui e nada acontece: você fica sentado lá durante horas seguidas e volta no meio da noite.


— Sei que você me seguiu muitas vezes — retrucou Baal Shem —, porque a noite é muito silenciosa e ouço os seus passos. Sei também que todos os dias você fica escondido atrás do portão. Assim como você fica curioso quanto a mim, também fico curioso quanto a você. Qual é o seu propósito?


O homem surpreendeu-se.


— Qual o meu propósito? Sou apenas um vigia.


— Meu Deus! — exclamou Baal Shem. — Você me deu a palavra chave. Esse também é o meu propósito!


— Mas não entendo. Nós, vigias, devemos vigiar uma casa ou um palácio. O que você está vigiando lá, sentado na areia?


— Há uma pequena diferença — ressaltou Baal Shem. — Você observa se alguém de fora quer entrar no palácio; eu simplesmente observo esse observador. Quem é esse observador? Este é o trabalho da minha vida inteira: observar a mim mesmo.


— Isso é bem estranho — ponderou o vigia. — Quem é que lhe paga por isso?


— A felicidade é tanta, tamanha é a alegria, é uma bênção tão imensa que o trabalho se paga plenamente — argumentou Baal Shem. — Basta um único momento e todos os tesouros não são nada em comparação com o que tenho.


— Mas que estranho — insistiu o vigia. — Durante toda a minha vida eu tenho sido um observador, mas nunca tive uma experiência tão bonita. Amanhã à noite vou junto, para que me ensine como faz. Já sei observar, então parece que basta mudar a direção, pois você está olhando em outra direção.


Basta um único passo para a direção ou a dimensão certa. Podemos nos concentrar no exterior ou fechar os olhos para ele e deixar que toda a nossa consciência se centre no interior. Você saberá quando isso acontecer porque você é a percepção. Ela nunca foi perdida, mas estava emaranhada com mil e uma coisas. Remova a sua percepção de todos os lugares e, aos poucos, deixe-a descansar dentro de você — então terá chegado em casa.


O núcleo fundamental, o espírito da meditação, é aprender a testemunhar. Um corvo grasna, você escuta. São dois elementos, o objeto e o sujeito. Mas será possível ver a testemunha que observa ambos? Há o corvo, há o ouvinte e há ainda alguém que está vigiando ambos.


É muito simples.


Observar é meditação. O que está sendo observado é irrelevante. Você pode olhar as árvores, o rio ou as nuvens, como também pode olhar as crianças brincando ao seu redor. Observar é meditação. O que se observa o objeto, não vem ao caso.


Lembre-se de uma coisa: meditação significa percepção. Tudo o que é feito de forma perceptiva é meditação. Não importa qual é a ação, e sim a qualidade dessa ação. Caminhar pode ser uma meditação se você caminhar atentamente. Sentar ou ouvir os pássaros pode ser uma meditação se você sentar ou ouvir atentamente. Escutar o ruído interior da sua mente pode ser uma meditação se você estiver atento e observando. Se não se mover como se estivesse dormindo, tudo o que você fizer será meditação.


O primeiro passo para aumentar essa percepção é permanecer muito atento ao seu corpo. Pouco a pouco, você ficará mais atento a cada movimento. À medida que você se torna mais e mais perceptivo, um milagre começa a acontecer: muitas das coisas que costumava fazer deixam de existir. O seu corpo fica mais relaxado e mais harmonizado. Uma paz profunda começa a envolvê-lo e o seu corpo passa a pulsar com uma música sutil.


Comece então a ficar atento aos seus pensamentos. Eles são mais sutis que o corpo e também mais perigosos. Mas, quando se tornar perceptivo em relação a seus pensamentos, se você anotar tudo o que ocorre em qualquer momento, ficará surpreso.


Depois de 10 minutos, leia o que escreveu e verá uma mente insana dentro de você! Por não estarmos perceptivos, toda essa loucura flui como uma corrente oculta, afetando tudo o que fazemos e deixamos de fazer. O somatório final disso tudo será a sua vida, então é preciso mudar essa loucura. O milagre da percepção, contudo, é que basta tornar-se perceptivo — não há nada, além disso.


A própria observação muda tudo. Pouco a pouco, a loucura desaparece e os pensamentos começam a recair num determinado padrão. O caos que produziam deixa de existir e eles entram em harmonia, como um universo. Novamente, uma paz mais profunda prevalece.
Quando o seu corpo e a sua mente estiverem em paz, verá que também estão em harmonia, afinados um com o outro, com uma ponte interligando-os. Já não estão mais seguindo em direções diferentes: pela primeira vez existe uma harmonia que o ajuda imensamente a dar o terceiro passo, o de passar a perceber os seus sentimentos, emoções e humores.


Quando puder perceber esses três aspectos, eles se fundirão em um único fenômeno. E quando todos os três forem apenas um — quando funcionarem em conjunto, perfeitamente —, será possível sentir a sua música, eles serão como uma orquestra. É aí que a quarta etapa acontece. Não é possível fazer nada em relação a ela: acontece por conta própria, é uma dádiva do todo, a recompensa para quem deu os três passos anteriores. O quarto passo é a suprema percepção que produz o despertar. Você passa a perceber sua própria percepção. É isso que cria um buda, alguém que despertou. Somente nesse despertar é possível conhecer a felicidade. O corpo conhece o prazer, a mente conhece a felicidade, o coração conhece a alegria, o quarto passo produz o êxtase. O êxtase é a meta de todos os sannyas, daqueles que buscam, e a percepção é o caminho para ele.


O mais importante é estar constantemente observando, não se esquecer de que está observando.., observando.., observando. Pouco a pouco, conforme o observador vai se firmando, tornando- se mais estável, mais firme, uma transformação acontece. As coisas que ele estava observando desaparecem. Pela primeira vez, o próprio observador torna-se aquele que é observado.

Você chegou em casa.




OSHO. Meditação: a primeira e última liberdade. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.